terça-feira, 31 de outubro de 2017

AS ASAS

Movendo os braços em torno à lateral do corpo eu voava! Horas de treinamento eram necessárias para que o movimento de cada braço tivesse a potência de uma hélice. Até chegar ao equilíbrio aéreo dos dois braços funcionando sincronicamente levei muitos tombos, feri os joelhos, machuquei as mãos e esfolei a sola dos pés. Mas depois de algum tempo, conseguido o equilíbrio e dado o primeiro salto no ar, eu planava a poucos centímetros do chão. Aos poucos ia me elevando e ganhando altura sobre as construções da rua, depois do bairro, a seguir da cidade. A dor inicial do esforço dos braços em hélices ia desaparecendo e um ruído característico indicava o surgimento de asas potentes, que agora me sustentavam no ar. Mais que vê-las, eu podia senti-las fortemente enraizadas no meu corpo. 
De início eu estava só e não vislumbrava viva-alma no espaço aberto que se descortinava aos meus olhos. Aos poucos, porém, manchas claras no céu me indicaram a presença de outros seres iguais. Por diversas vezes observei-os à distância, temendo suas presenças. De corpos magros e de longos cabelos, suas vestes diáfanas, que mal se delineavam no azul acinzentado do espaço, tornavam-nos surreais.  Mas a sensação de tranquilidade e segurança, aos poucos, tomou conta de mim e eu soube que podia confiar neles. Eram seres como eu, desgarrados do mundo, que nas madrugadas cumpriam o destino de livrar-se de si mesmos e seguir o anseio interior de libertação.
Nos primeiros dias éramos dois ou três seres iguais, no entanto, com o passar das semanas e o aprendizado da elevação a níveis mais altos do espaço, pude constatar que éramos muitos. Semelhantes em aparência, com o tempo nos aproximamos. Ficávamos horas a dialogar, planando tranquilamente, como se boiássemos numa agradável e imensa piscina, numa franca afronta às leis da realidade física do mundo material. Uma observação que pude fazer é que éramos, na totalidade do grupo, seres femininos, notívagos e, de certa forma, sonâmbulos, já que muitos dentre nós só se davam conta de onde estavam ao sentir no rosto a brisa fria da elevação no espaço.  Isso só era possível porque o ritual de elevação já era tão inerente à nossa cognição que muitas vezes passava despercebido do corpo físico. 
Foram tempos de descobertas. Minha consciência ganhava amplitude, se expandia. Os limites da realidade se ampliavam e eu já podia perceber o que normalmente era imperceptível. Eu sentia que tudo era possível desde que me mantivesse liberta das cadeias impostas pelos limites da realidade material, concreta e palpável.  Se havia alguma verdade ela estava ali, no esforço do aprendizado da transformação e da elevação, no imperceptível que está no cotidiano, no além da razão que flerta com a racionalidade, mas sem manifestar-se, discreto em sua totalidade divergente e transgressora.  
            Assim como chegou, o tempo de voar se foi, inexplicavelmente. Por vezes, ainda me lembro das demais companheiras de jornada e fico a imaginar se lhes ocorreu o mesmo que a mim e uma pergunta insiste em incomodar meus dias: o que, afinal, foi feito de minhas asas? 



terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O ESTIGMA DE PROMETEU

Como já sabem Vossas Excelentíssimas pessoas, o Reino de Prometeu  situa-se logo ali, entre o real e o imaginário, no cotidiano dos contadores de causos, que são aqueles  que vivem  da ingestão de sentidos e significados emitidos através de um conjunto de símbolos organizados num espaço branco, de vários formatos.
Acontece que o Reino de Prometeu tinha um grande fígado instalado na praça central de sua capital. A tarefa do tal fígado era manter o Reino de Prometeu vivo e próspero, juntamente com Sua Graça a divindade Balança Equilibrada. Caso o fígado morresse, Prometeu se findava com ele, pois sozinha Balança Equilibrada reclamava que nada poderia fazer.  Era tarefa dos membros da família Povaréu vigiar para que o grande abutre de Lord Narciso, sempre atacado por uma fome sem limites, não destruísse aquele fígado, devorando-o pedaço por pedaço.
Prometeu era uma terra muito estranha!
Alguns reinóis acompanhavam o processo de criação dos sentidos e significados de alguns membros do conjunto de símbolos, desde sua gestação no seio da Camarilha, célebre deusa, adorada pelo grupo religioso denominado Politikós, até sua ressignificação nos ombros, bolsos e estômago da plebe, ali representada pelos membros da família Povaréu.  
Como se não bastasse, a Rainha de Prometeu teve um republicano surto de cegueira ao tentar abater o abutre de Lord Narciso, o vice-rei, em pleno voo, na vã tentativa de evitar que ele bicasse o fígado responsável pelo equilíbrio do Reino, razão pela qual a depuseram, apesar dos protestos.  Lord Narciso amava seu abutre acima de todas as coisas do Reino.
Como este era  um Reino suis-generis, deposta a Rainha, Lord Narciso assumiu o governo geral  como dirigente provisório, com o apoio da deusa Camarilha e de seus agregados, os Politikós. Certo dia, Lord Narciso amanheceu  imbuído de seus ímpetos arrebatadores e  decretou que quem poupava um olho, era! Quem usava os dois, não era!   É claro que esta era uma forma reducionista de considerar inválidos os reinóis que não usavam bandagem num olho e reduzir a família Povaréu à sua insignificância.   
Que triste decreto !   A prática de usar bandagem atrofiou a capacidade de olhar de alguns reinóis, até que um dia, de reino organizado, onde todos sabiam que o chão estava embaixo dos pés, Prometeu transformou-se num espaço caótico e titubeante! 
O Caos, gerente geral do reinado provisório de Lord Narciso, desatento e desorganizado que sempre foi, provocou os brios da família Povaréu, da família Nobiliária e da família Arcabuz, três grandes lideranças locais de Prometeu.
A família Arcabuz, amiga da família Nobiliaria, detestava todos da família Povaréu, pois já haviam se encontrado em campos opostos em mais de uma ocasião e isso acabara por gerar uma sólida antipatia, que, aliás, era correspondida nas mesmas dimensões pela família Povaréu.
Bem, este desencontro das lideranças locais se dava exatamente porque o Povaréu, desobedecendo o decreto de Lord Narciso,  não usava bandagem num olho e continuava vendo tudo com os dois olhos! Os Nobiliária e os Arcabuz usavam a tal bandagem, bem como a deusa Camarilha e seus adeptos, os Politikós.
Por fim,  a soma dos Nobiliária  à família dos Arcabuz, com a ajuda de deusa Camarilha e seus adeptos, acabou por misturar todos os símbolos dos espaços em branco e varreu  a paz e a tranquilidade de Prometeu,  para pavor de seus guardiões: o grande fígado da praça da capital e  a tal da Balança Equilibrada  - célebre deusa  nacional, musa reguladora dos  dois pesos e das duas medidas.  As ações decretadas por Lord Narciso para controlar a família Povaréu constava em aumentar o grupo da família Arcabuz nas ruas, em situação de controle e vigilância, fossem quais fossem as consequências. Só os  Nobiliária, os Politikós e a deusa Camarilha  tinham passagem livre pelas ruas e avenidas prometeicas.
Isso era muito estranho, mas Balança Equilibrada resolveu ignorar tal situação,  o que foi motivo de grande espanto em Prometeu, principalmente entre os membros da família Povaréu.  Bem, nesse período pródigo de ações desprometizantes apareceu um medo absurdo entre os prometeucos. 
Como  Lord Narciso deixava livre seu abutre e toda noite a família Povaréu via quando ele se aproximava do fígado de Prometeu e arrancava-lhe um pedaço, mas já não se manifestavam. Já, os Nobiliária, os Arcabuz, os Politikós e Camarilha, sua deusa, com o olho esquerdo vendado, nada viam e quando a família Povaréu contava o fato, acusavam-na de inventar histórias para amedrontá-los.
Outra história contada pelos membros da família Povaréu era que três novos rios estavam se formando: o rio Desemprego, o rio Pobreza e o rio Fome – e que se suas águas se unissem alagariam Prometeu de tal forma, que geraria um novo, denso e profundo Mar, capaz de afogar a todos, independentemente da família de pertença. Claros que os Nobiliária e os Arcabuz não acreditavam nisso! Afinal, mesmo com um só olho eles acreditavam que conseguiam ler todo o conjunto de símbolos organizados num espaço branco, de vários formatos. O que eles não sabiam ainda é que a bandagem adere aos olhos e ao invés de cegar um, cega os dois.
Muitos da família  Nobiliária  amavam a Lord Narciso e aguardavam a construção do templo  Ponte para o Futuro, que ele prometera antes de assumir o poder no Reino.  Talvez ela pudesse funcionar como espaço de proteção contra as águas dos três novos rios, que ameaçavam criar um Mar  profundo e denso capaz de engolir a realidade, pensavam eles.  Mesmo não acreditando na família Povaréu, eles preferiam estar prevenidos,  e já que Lord Narciso prometera...  
Segundo dizia Lord Narciso, a Ponte para o Futuro seria o templo máximo onde estariam todos os deuses capazes de brindar Prometeu contra a afluência de  tais águas! A promessa era a de que todos poderiam orar no templo Ponte para o Futuro, cotidianamente,  e  que seriam atendidos.   
Enquanto a Ponte para o Futuro não era construída, os três rios, autônomos, fluídos e desobedientes, continuavam avançando e já se conseguia visualizar as dimensões do Mar que eles criariam em Prometeu!
 Prometendo a Ponte, mas pensando que Mar é bom pra peixe, Lord Narciso percorria todas as feiras tentando vender sua futura criação de boi-de-piranha! Nas suas múltiplas andanças pelos corredores da feira, muito parecidos com os corredores de seu Palácio do Nascer do Sol, Lord Narciso percebeu que estava ficando tão invisível quanto sua Ponte. Foi quando resolveu construir ao  menos uma Pinguela para o Passado, objetivando frear seu surto de invisibilidade.   Foi seu maior erro! 
Muitos reinóis não conseguiam entender os sentidos dos novos tempos, pois tinham um olho vendado, mas todos reinóis tentavam equilibrar-se para permanecer em pé -  apesar dos solavancos do solo provocado pelo avanço das águas dos três rios fatídicos -  mesmo sem a tal Ponte, mas estava ficando muito difícil fazer isso. E, insatisfeitos com a Pinguela para o Passado, começaram a cobrar a Ponte para o Futuro! O problema é que as águas dos três rios autônomos, fluídos e desobedientes já chegavam ao peito do Povaréu e vendo aquilo, os Nobiliária e os Arcabuz perceberam que eles também seriam atingidos e não gostaram do que viram e sentiram.
Depois de muito refletir, concluíram que as águas dos três rios autônomos, fluídos e desobedientes criariam um Mar tão volumoso e denso, que não sabendo a quem poupar, afogaria a todos! Como se equilibrar em Prometeu quando as águas do denso Mar  cercasse o espaço, tendo um olho atrofiado?  Aqueles que não viam certamente tentariam subir nos ombros e cabeças dos que viam com os dois olhos, para tentar ver também.
Mas que tristeza! Nada seria capaz de melhorar tão rapidamente o olho atrofiado dos Nobiliária e dos Arcabuz quanto o fluxo das águas. Nem mesmo discutir o sexo dos seres alados que pairavam no espaço do imaginário coletivo do Reino de Prometeu poderia ajudar! Mas uma coisa já era certa: os Nobiliária e  os Arcabuz, quando viram que a Ponte prometida virara uma Pinguela, começaram a prestar atenção na dor  que sacudia  Prometeu  a cada vez que o abutre arrancava, na calada da noite, um pedaço de seu fígado. A família Povaréu andava tão desanimada que se esquecera que era sua tarefa espantar o abutre de Lord Narciso.
Tudo bem que até aquela ocasião os Nobiliaria e os Arcabuz  não acreditavam nessa história de abutre, fígado e Prometeu! Por outro lado, ouviam dizer que o  fígado se regenerava quando submetido às fontes líquidas, pastosas, gasosas e sólidas escondidas no solo e subsolo de Prometeu.
 Foi então que descobriram que  Lord Narciso - com o auxílio dos Politikós e incentivado pela deusa Camarilha - resolvera vender todas as fontes líquidas, pastosas, gasosas e sólidas  capazes de promover a cura de Prometeu, a partir da regeneração de seu fígado guardião.
Mas já era tarde e portanto, sem fontes, sem cura! Enquanto isso, os rios Desemprego, Pobreza e  Fome  se uniram dando origem ao grande Mar, também chamado Mar das Desesperanças.   E agora, além do abutre, Lord Narciso comprara uma águia, esta mais potente e forte na sua investida contra o fígado de Prometeu!  Sem o fígado que lhe garantisse a existência, a deusa e musa, a tal da Balança Equilibrada,  também lavou as mãos sobre o destino de Prometeu. Aliás, ela nem se lembrava  mais que era  uma deusa. Talvez por isso tivesse perdido de vez a compostura e a sisudez próprias das divindades. A deusa Camarilha dançava feliz sobre os cadáveres dos afogados, enquanto cantava vitória dos seres de um olho só, sobre os seres que tudo viam, conforme ela sempre desejara.  Afinal, era de sua natureza ser quem era. 
E assim se conclui tristemente a lenda de Prometeu, cuja sina era mesmo a de viver  acorrentado ao Éden, eternamente, sem gozar de suas delícias! Graças a ajuda das famílias  Nobiliaria Arcabuz, os Politikós e a deusa Camarilha, e a colaboração, sem precedentes, da deusa Balança Equilibrada, a  lenda se renovava, tal qual o castigo eterno do ente que roubou o fogo dos deuses para dá-los aos homens !  Zeus jamais o perdoou !